September 27, 2021

ARTIGO: Redução de danos

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Por Dérica Serra

O tabagismo é uma das principais causas de morte preveníveis, não só nos países subdesenvolvidos como também nos desenvolvidos. É sabido que fumar é prejudicial à saúde e que o consumo regular de produtos à base de tabaco pode levar a uma série de doenças, como as cardiovasculares, respiratórias crônicas, cânceres, entre outros.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o consumo de tabaco no mundo seja responsável por mais de 5 milhões de mortes de adultos por ano e que, próximo ao ano de 2030, esse número será superior a 8 milhões de mortes por ano.

É preciso que deixemos nossos viéses e preconceitos sobre o tema de lado e que passemos a levar em consideração, não apenas as formas de prevenção e cessação do tabagismo, mas também a aplicação de medidas de redução de danos para aqueles que não querem parar de fumar, medidas estas que grande parte da população desconhece.

Segundo o estudo Cessação do tabagismo, de Judith J. Prochaska, PhD da Universidade Stanford, o sucesso em longo prazo da cessação do tabagismo sem assistência é cerca de 5% a 7%. Por outro lado, as taxas de sucesso em um ano são de 20 a 30% entre fumantes que utilizam orientação para cessação e fármacos recomendados. Infelizmente, as taxas de falha existem e não podemos fechar os olhos para essas pessoas que continuam fumando: é preciso buscar alternativas.

O ato de fumar, à primeira vista, pode parecer simples, mas envolve todo um ritual que vai desde acender o cigarro, a experiência tátil de segurar o cigarro, de levá-lo à boca, até a tragada em si, que possui seu tempo de duração, além de todas as sensações associadas. Assim, parar de fumar não é apenas uma questão de ter forças para jogar o cigarro fora, e sim resistência a passar pela quebra do ritual e a falta da sensação causada pela nicotina. E, ainda que a nicotina seja o aditivo viciante, são os outros mais de mil compostos relacionados à queima do tabaco, como o monóxido de carbono, por exemplo, que acabam sendo os maiores responsáveis pelas doenças relacionadas ao tabagismo.

Sabendo que a nicotina não é a única vilã, fica mais fácil de se entender que ter uma opção que contenha a nicotina, mas que evite a combustão do cigarro, pode proporcionar a manutenção da experiência do ritual com o benefício da diminuição dos constituintes tóxicos, sendo assim chamada de redução de danos.

Diferente do que muitos de nós imaginamos, o princípio de redução de danos vem sendo praticado em comunidades de diversas culturas desde os séculos XVIII e XIX, ganhando maior dimensão depois do reconhecimento da ameaça da disseminação do HIV entre usuários de drogas injetáveis.

Mas o que é então a redução de danos? É a aplicação de um conjunto de medidas com potencial de reduzir danos em atividades originalmente perigosas às quais somos expostos constantemente no dia a dia, seja ao dirigir, ao optar por comer uma comida não saudável, ao se consumir álcool ou ficar um dia sem dormir, ou mesmo quando se fuma um cigarro.

A redução de danos no tabagismo trata da aplicação de um conjunto de práticas e políticas com potencial de diminuir os prejuízos causados pelo tabaco, sem necessariamente reduzir o consumo, em pessoas que não vão parar de fumar, independentemente do motivo. Ou seja, seu foco é preventivo.

A evolução da ciência e das tecnologias nesse campo permitiram o aparecimento de dispositivos de tabaco aquecido que, ao funcionarem em temperaturas controladas sem queimar o tabaco, são capazes de liberar menos tóxicos para quem os utiliza e para o ambiente externo, trazendo uma nova perspectiva no horizonte de quem antes só via fumaça, seja ele o próprio adulto fumante ou as pessoas que convivem com a fumaça a seu redor.

Numa sociedade onde cada vez mais se luta por direitos iguais, respeitar os fumantes passa a ser obrigatório e não mais uma condição. Ser empático pela luta do fumante e suas dificuldades, neste caso, é oferecer ajuda sem julgamentos, é auxiliar a quebrar barreiras e, assim, caminhar rumo à construção de uma sociedade melhor, onde as escolhas possam ser suportadas por profissionais da saúde e as pessoas que importam.

*Dérica Serra é médica oftalmologista com especialidade em Neuroftalmologia, pós-graduada em Medicina Farmacêutica pela Universidade Federal de São Paulo, tem MBA em Gestão de Negócios pela IBMEC Business School, e formação em Princípios da Economia da Saúde e Aplicação na Tomada de Decisão pelo IECS Instituto de Efectividad Clinica y Sanitária, na Argentina. Atua como Head de Assuntos Médicos da Philip Morris no Brasil